A escolha do português como língua oficial foi uma decisão tomada pela elite política timorense, sem que o povo fosse devidamente consultado. Se houvesse sido dada voz à população, é plausível que a maioria tivesse optado pelo inglês ou mesmo pelo bahasa indonesia, línguas com maior relevância regional e internacional. Esta imposição vertical criou desde logo um fosso entre as aspirações políticas e a realidade social do país.
O problema agravou-se pela ausência de um compromisso sério, tanto por parte do Governo como da sociedade civil, em recuperar o atraso linguístico acumulado durante os 24 anos de domínio indonésio, período durante o qual a língua portuguesa praticamente desapareceu do mapa sociocultural timorense. Ensina-se português, é certo, mas sem as estratégias, os esforços e os incentivos adequados à mentalidade e ao ambiente sociocultural local, resultando numa aprendizagem ineficiente e desmotivada.
A ineficácia do ensino do português torna-se ainda mais gritante quando contrastada com outros exemplos de sucesso. Os médicos cubanos, convidados a iniciar e manter o curso de medicina geral em Timor-Leste, conseguiram, em menos de um ano, que os estudantes de medicina dominassem fluentemente o espanhol, tanto na leitura como na expressão oral. Este contraste evidencia que o problema não reside na capacidade de aprendizagem dos timorenses, mas sim na abordagem pedagógica adoptada para o português.
O fanatismo pela língua portuguesa, onde a pressão pela sua manutenção como língua oficial e de ensino se mantém inquestionável, está a transformar o panorama linguístico de Timor-Leste num palco de gargalhadas e num autêntico desastre pedagógico. Basta folhear os jornais nacionais e ler os títulos em português para se explodir numa crise de riso que pode durar horas, tantos são os erros básicos de gramática e sintaxe.
Nas universidades, incluindo a Universidade Católica, onde se ostenta o slogan "apostar na língua portuguesa", observa-se a triste cena de estudantes e professores que, encorajados ou mesmo obrigados a expressarem-se em português, aproveitam esta oportunidade para dar asas à liberdade de expressão, resultando na ostentação, sem escrúpulos, de erros gramaticais horrendos. Isto, para além dos prejuízos decorrentes da limitação de acesso a material didáctico em línguas mais facilmente compreensíveis.
Paradoxalmente, a sorte do português é partilhada pelo Tétum. Nunca houve qualquer esforço visível do Governo em padronizá-lo adequadamente. Hoje existem pelo menos quatro versões diferentes: o Tétum com ortografia oficial do governo, o Tétum da Igreja Católica, o Tétum do Dr. Geoffrey Hull e o Tétum das igrejas brasileiras. Esta fragmentação impede o desenvolvimento natural da língua nacional autóctone.
É urgente reconhecer que o prestígio nacional sem restrições e orientações práticas mata a produtividade e o bom senso. Propomos uma mudança radical de paradigma: conceder ao Tétum um período de 30 a 50 anos para se consolidar, enriquecer e desenvolver como língua nacional de facto, com investimento sério na sua padronização, desenvolvimento lexical e produção de material didáctico.
Sem abandonar o Portugues, durante este período, o inglês deveria assumir o papel de língua internacional de ensino superior e comunicação científica, enquanto o português poderia manter-se como língua de prestígio cultural, mas sem a pressão de ser língua de ensino obrigatória.
O futuro de Timor-Leste não pode continuar refém de decisões linguísticas que servem mais o ego político do que o desenvolvimento real do país. É tempo de escolher a pragmática eficácia em detrimento do romantismo linguístico mal direccionado.
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